"Entre nós, o crescimento das forças reacionárias é, a rigor, bem mais perigoso do que nos EUA" - Política e Economia - Santa

Trump nos trópicos10/11/2016 | 18h59Atualizada em 10/11/2016 | 18h59

"Entre nós, o crescimento das forças reacionárias é, a rigor, bem mais perigoso do que nos EUA"

Professor universitário aponta a popularidade de Bolsonaro e o sucesso eleitoral de Doria e Crivella como alerta num país de instituições frágeis e falíveis

"Entre nós, o crescimento das forças reacionárias é, a rigor, bem mais perigoso do que nos EUA" Paul Beaty/AFP
Foto: Paul Beaty / AFP
Fábio Lopes da Silva
Fábio Lopes da Silva

O mundo assiste, consternado e condoído, ao triunfo de Donald Trump. O Brasil não é exceção. Faríamos melhor, contudo, se trocássemos a perplexidade pela constatação de que riscos semelhantes nos assaltam neste exato momento. Aí está, por exemplo, o sinistro Bolsonaro, que, por enquanto, é só um clown, mas pode se viabilizar como candidato à presidência. Aí está Doria, com sua lenga-lenga de que não é político mas empresário. Aí estão os fundamentalistas cristãos, que, na esteira da vitória de Crivella no Rio de Janeiro, começam a pôr as manguinhas de fora. Não se pode nem mesmo negligenciar o fato de que um dos slogans que mais circularam durante o processo do impeachment – "Quero o meu país de volta" – é perturbadoramente parecido com o "Make America great again", que elegeu Trump. Nos dois casos, sugere-se a ideia de decadência para, em seguida, culpar certos grupos por isso.

Entre nós, creio, o crescimento das forças políticas reacionárias é, a rigor, bem mais perigoso do que nos Estados Unidos. A democracia americana é sólida e antiga. Lá, os grupos de pressão, de resto, parecem suficientemente organizados para impedir os arroubos de Donald Trump. O mesmo não se pode dizer do que acontece por aqui: as nossas instituições capazes de neutralizar a violência da ultradireita são ainda muito frágeis e falíveis.

Outro motivo para eu me preocupar mais com o avanço do conservadorismo no Brasil do que com a situação americana decorre do fato de que os eleitores de Trump não são tão uniforme e tenazmente direitistas assim. Estou convencido de que boa parte dos que o escolheram teria votado em Sanders caso fosse ele o candidato democrata. Trata-se menos de conservadores empedernidos do que de órfãos da globalização, uma gente que tem perdido dinheiro e prestígio por conta da presença de imigrantes no país ou da pujança econômica da China, que conquista mercados antes dominados por produtos made in USA. É triste que essas pessoas tenham sido capturadas pelo lamentável discurso público de Trump, mas a verdade é que o novo presidente americano terá que responder rapidamente às demandas reais delas por emprego e renda, e é aí que a porca torce o rabo. A chance de ele frustrar expectativas é enorme. Em dois tempos, a sua popularidade – e a de suas ideias – pode despencar.

Seja como for, cabe aos liberais-progressistas – nos Estados Unidos e no mundo – não desistir de disputar os corações e mentes daqueles que eventualmente votaram em Trump ou que, em outros lugares, sentem-se tentados a escolher candidatos ultraconservadores. Tratar todos os eleitores da direita como se fossem cretinos é um velho preconceito a ser eliminado. É, se quiserem, o racismo típico das esquerdas. Nesse sentido, vale lembrar o grande cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, para quem é preciso entregar-se apaixonadamente à tarefa de educar até os mesmo os fascistas. "Ninguém nasce fascista", observa ele, "e talvez uma pequena experiência diversa na sua vida, um simples encontro, tivesse bastado para que seu destino fosse outro".

*É professor do departamento de Letras da UFSC

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