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Operação Lava-Jato14/04/2017 | 08h02

Confira o que diz ex-diretor da Odebrecht sobre a eleição de 2012 em Blumenau

Paulo Roberto Welzel fala sobre repasses feitos a três candidatos na cidade

Confira o que diz ex-diretor da Odebrecht sobre a eleição de 2012 em Blumenau Reprodução/Divulgação
Foto: Reprodução / Divulgação

FORMA DE ATUAÇÃO

Em 2012, eu era responsável na Odebrecht Ambiental como diretor-superintendente da região Sul do Brasil, compreendendo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. E atendendo à determinação do meu superior hierárquico, Fernando Cunha Reis, busquei identificar neste ano candidatos a prefeito com potencial de vitória nos municípios em que já tínhamos a concessão, no caso específico Blumenau. Bem como também ao mesmo tempo estava buscando candidatos que sinalizassem com a perspectiva de conceder à iniciativa privada a concessão de serviço de saneamento de água e esgoto nos municípios em que ainda não estivéssemos presentes. O objetivo das contribuições evidentemente era no sentido de, no primeiro caso, nos candidatos (dos municípios) onde já estávamos presentes, era assegurar o bom andamento das concessões já conquistadas visando garantir a normalidade do cumprimento do contrato de concessão. Tenho conhecimento que essas doações eram realizadas por caixa 2 e operacionalizados pelo sistema, pela equipe de Hilberto Silva.

PANORAMA DA ODEBRECHT AMBIENTAL

Esse era o panorama do processo. Tudo isso previamente definido e aprovado pelo meu superior, Fernando Cunha Reis. Com relação especificamente a Blumenau, nós tínhamos essa concessão desde o ano de 2010. No final deste ano de 2010, quando assinamos o contrato de concessão tínhamos pleiteado junto à prefeitura uma reparação devida por uma série de inadimplementos que estava ocorrendo por parte da prefeitura no contrato de concessão. Mais especificamente, no contrato de concessão era previsto que a prefeitura, quando chegássemos lá, iríamos receber uma área de abrangência de esgoto já instalada, de 24%. Quando recebemos a concessão, identificamos que apenas 5% haviam sido instalados. Portanto, não os 24% propostos. Isso acarretou desde o primeiro dia num sério problema financeiro para a companhia, porque além de (não) ser 24%, era uma região muito concentrada. Havia uma grande quantidade de clientes. Isso criou logo um grande desequilíbrio financeiro para a concessão, requerendo maiores investimentos nossos em todo esse processo. Nós pleiteamos uma reparação nisso, mas as coisas não evoluíram nesse sentido.

ELEIÇÕES DE 2016

Vocês chegaram a apoiar a reeleição de Napoleão Bernardes?

Não. Eu creio que não (risada nervosa). Isso foi agora em 2014.

CAMPANHA DE NAPOLEÃO BERNARDES (PSDB)

Ainda em relação aos candidatos, eu também tive um encontro com o senhor Dalirio Beber, que era um fundador do PSDB em SC e também era um articulador da campanha do Napoleão Bernardes. Ele hoje é um senador da República. Naquela altura, fui lá a Blumenau me encontroar com ele. Quando informei a ele que nós também iríamos contribuir com a campanha de Napoleão Bernardes. Sempre que eu estava lá (em Blumenau) eu encontrava com ele. Provavelmente foi na imobiliária que ele tinha lá. Ele tinha uma imobiliária, que chama Imobiliária Orbi, devo ter ido lá. Como me encontrei com ele em cafés. Provavelmente nesse dia tenha sido lá, na imobiliária. Fica na Avenida Brasil, no bairro Ponta Aguda. Era uma imobiliária muito simples, em que tinha uma recepção, uma entrada, e logo ao lado uma sala de reunião, que às vezes deve ser para receber clientes da imobiliária. Isso eu estava em Blumenau, e aí eu pedi se ele podia me atender lá no local. Liguei para a imobiliária dele. Devo ter ligado do hotel. Hotel Plaza, em que eu ficava sempre.

CANDIDATOS A VEREADOR

Nós tínhamos definido naquela altura contribuição também para candidatos a vereador, num total de R$ 130 mil, em que demos o nome como “Soldado”. E aparece no “Drousys” esse valor aí. No entanto, isso é uma coisa que eu tenho que mencionar, que eu não o registro de que vereadores foram esses. Porque eu tinha anotado, tinha feito a distribuição, e não guardei isso. Isso era aquele pedido que eu fazia ao Eduardo Barbosa. Eu mandava o codinome das pessoas, chamava esse tal de “Soldado”. Isso que eu digo é porque eu me recordo. Eu propus ao Fernando Cunha e ele autorizou R$ 130 mil. Depois recorrendo ao Drousys agora a gente vê esse lançamento, esse único lançamento. No caso não sei mencionar ao senhor lamentavelmente quem são.

CAMPANHA DE ANA PAULA LIMA (PT)

Em relação a essas contribuições, especificamente no caso da candidata Ana Paula Lima, uma vez que Fernando Cunha definiu os valores de contribuição, tomei a iniciativa de procurar o deputado federal Décio Lima, que é o seu esposo. Eu o conhecia de um evento que houve a assinatura de contrato de financiamento da Caixa Econômica Federal, em que ele lá fez um discurso e se apresentou. E a partir daí então eu já o conhecia. Então eu pedi a seus assessores um encontro com ele. Liguei para o gabinete dele. Devo ter feito da empresa para Brasília. Eu mesmo liguei. Em geral não tinha secretária. E aí liguei, pedi um encontro. E ele me recebeu. Marcamos um encontro no seu apartamento funcional em Brasília. Onde informei a ele da decisão nossa de apoiar a campanha da então deputada Ana Paula Lima. Isso deve ter sido no primeiro, segundo trimestre de 2012.

ELEIÇÕES DE 2012

E por essa razão, no pleito de 2012, identifiquei três potenciais candidatos na cidade de Blumenau, que são: Jean Kuhlmann, então deputado estadual na Assembleia Legislativa de SC pelo PSD; Ana Paula Lima, deputada estadual também na Assembleia Legislativa de SC pelo PT, e Napoleão Bernardes, então vereador na Câmara Municipal de Blumenau. Esses três candidatos eu expus a situação e a possibilidade dos três virem a vencer a eleição. Apresentei isso a Fernando Cunha Reis. E ele então definiu, estabeleceu uma contribuição de R$ 500 mil para cada um dos candidatos.

Quais eram os codinomes utilizados para cada um deles?

O Jean Kuhlmann era “Alemão”. A Ana Paula Lima era “Musa”. E Napoleão Bernardes era “Conquistador”. Evidentemente que nesse caso o propósito da nossa contribuição era permitir termos uma interlocução positiva com o município, visando evidentemente superar aquela questão que ficou pendente relativamente ao desequilíbrio do contrato. Nossa ideia era simplesmente apoiá-los no sentido de que viessem a ser os vencedores e que tivéssemos uma boa relação, mas nunca... nunca disse “o objetivo é esse”. É uma situação bastante normal nas diferentes concessões, onde permanentemente discussões a respeito de reequilíbrio de contrato. É uma coisa usual, natural.

CAMPANHA DE JEAN KUHLMANN (PSD)

Falei com o chefe de gabinete do então prefeito na época. O chefe de gabinete chamava-se Cássio Quadros, que era do mesmo partido. Falei lá na prefeitura, na antessala do chefe de gabinete. Não era o representante dele (Jean Kuhlmann), mas era o único contato que eu tinha era esse Cassio Quadros, era da situação. Simplesmente se estava lá, ele me recebia. Eu estava lá em Blumenau, eu dizia: “olha, posso chegar aí?”. Nada com grandes formalidades.

ORIGEM DOS RECURSOS

Esses recursos foram pagos com doação legal ou caixa 2?

Caixa 2.

Você sabia a origem desse recurso?

Não.

Você que operacionalizou esses recursos?

Eu sempre fazia o pedido ao Eduardo... Primeiro era aprovado pelo Fernando Cunha Reis, depois eu transmitia isso ao Eduardo, que era responsável pela área de Recursos Humanos da empresa. Ele fazia a programação. Depois me passava. Eu que repassava.

Quem efetiva os pagamentos aos representantes? Era a equipe de Hilberto Silva?

Provavelmente sim. Porque nós não nos envolvíamos em nenhum momento nesse assunto.

Você sabe quem são as pessoas que receberam efetivamente esse dinheiro em espécie?

Não sei.

Quem pode saber?

Teria que ser eu, porque na verdade, cada uma dessas pessoas com quem conversei me passaram nomes de pessoas que fazem a arrecadação.

Quem eram os portadores que levaram esses recursos até Blumenau?

Não. Não tinha como saber. Eu indicava os endereços, eles iam aos endereços e entregavam esses recursos.

Quais são as provas que o senhor tem desses pagamentos?

Tenho no “Drousys” as relações em que indicam os valores que indicam os codinomes Alemão, Musa e Conquistador.

APÓS AS ELEIÇÕES DE 2012

Foi eleito Napoleão Bernardes e a partir desse tempo, ele desde então, através da Agir, que é a agência reguladora, que faz a intermediação disso, eles mobilizaram uma equipe e estabeleceram um plano de trabalho conjunto visando o equilíbrio. Não só o equilíbrio fez várias críticas ao contrato, algumas questões que eles queriam aprimorar, enfim, houve todo um trabalho feito. Eles contrataram uma empresa, uma consultoria, uma auditoria, para fazer todo um levantamento. Abriram todas as frentes do contrato. Interfaceando inclusive com o próprio Tribunal de Contas (do Estado), com a agência reguladora. Enfim, depois de muito tempo, aí já não tive notícia, porque não foi comigo, sim, se efetivou várias revisões de contrato, buscando o reequilíbrio do contrato.

Quanto foi pago após as revisões?

Não sei lhe dizer, porque foi após a minha gestão. Essa reivindicação que se fez por recursos financeiros, uma das coisas que quando o último prefeito assumiu, fui lá conhecê-lo e ele disse: “Olha, Paulo, esquece. Compensações financeiras jamais iremos fazer. O que podemos rediscutir são várias questões do contrato”. Então, isso que foi feito. Ou seja, não se envolveu recursos financeiros nesse reequilíbrio. Se envolveu definições de investimentos a serem feitos, prazos de investimento, enfim, uma série de outras alternativas. Eles tinham uma reivindicação de retomarem o controle da parte comercial, que estava conosco todo o sistema. Houve todo um ajuste. Houve toda uma reformulação no contrato, inclusive nos prazos. Diria que nós conseguimos reequilibrar sem termos maiores prejuízos, mas nunca foi como originalmente se previa.

CONTRAPONTOS

O que diz Dalirio Beber:

Contatado ontem pela reportagem, o senador não atendeu as ligações. A assessoria de imprensa informou que ele optou por manter o mesmo discurso publicado pelo Santa ontem. Segue a manifestação de Dalirio:

O que ele (Paulo Welzel) disse no vídeo (das delações) é que ele foi na imobiliária para oferecer ajuda de campanha. Assim como ele disse que ofereceu para os outros. Eu repudio. Não teve essa oferta. Ele não me falou nada sobre esse assunto (caixa 2), como nós não recebemos qualquer ajuda dele. Essa é uma ligação dele que, com certeza, não existiu. Não existiu. Confirmo o encontro na imobiliária. Mas não houve oferta de dinheiro, não se falou de dinheiro, em absolutamente nada. Não teve ajuda da campanha. Na Casan, eu atendia inúmeras pessoas, inclusive ele. Mas em Blumenau, posso assegurar, dessa vez que ele falou, talvez mais uma outra.

A tabela da Odebrecht mostra dois pagamentos, em 26 de julho de 2012 e 16 de agosto de 2012 para Napoleão, intermediados pelo senhor.  Esses pagamentos existiram?

Absolutamente não existiu nenhum pagamento.

O que diz Napoleão Bernardes:

Por meio de nota enviada pela assessoria de imprensa da prefeitura de Blumenau, confira abaixo o que diz o chefe do Executivo:

O prefeito Napoleão Bernardes reafirma que seu governo e sua vida pública sempre foram e são pautados na ética, na seriedade, na transparência e na verdade. Napoleão Bernardes tem certeza de que os fatos serão esclarecidos mostrando sua isenção neste processo. Para tanto, está reunindo elementos para restabelecer a verdade dos fatos.

O que diz Ana Paula Lima:

A assessoria de imprensa da deputada estadual informou ontem que a parlamentar se manifestaria por meio da mesma nota divulgada aos meios de comunicação anteriormente. Segue o conteúdo:

Em relação à citação do meu nome nas investigações do Supremo Tribunal Federal declaro serenidade e estou à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos.

Afirmo que não sou ré e nem investigada em nenhum processo da Lava-Jato.
Afirmo que as doações à minha  campanha eleitoral foram declaradas e aprovadas pelos órgãos competentes, e que minha conduta pública é regida pelos princípios da ética, moral e legalidade.

O que diz Décio Lima:

A assessoria de imprensa do deputado federal também informou que ele só se posicionaria sobre o tema por meio da mesma nota divulgada aos meios de comunicação anteriormente. Abaixo, o teor:

Em relação à menção do meu nome nas investigações do Supremo Tribunal Federal, recebo com tranquilidade, uma vez que confio que a verdade prevalecerá e a justiça será feita. Declaro que sou o maior interessado no esclarecimento de toda esta situação. É importante destacar que não sou réu e nem investigado em nenhum processo da Lava-Jato.  A minha vida pública sempre foi pautada pela ética, lisura e transparência e a minha história demonstra a preocupação com a legalidade de todos os meus atos.

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