Temer e as vitórias que arruínam - Política e Economia - Santa

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Upiara Boschi15/07/2017 | 06h00Atualizada em 15/07/2017 | 14h37

Temer e as vitórias que arruínam

Acuado pela denúncia de Janot, presidente forçou a mão para garantir uma vitória simbólica na comissão da Câmara dos Deputados e acabou agindo como o chefe de quadrilha que veementemente nega ser

Há algumas semanas vimos os nossos deputados estaduais aprovarem uma mudança na Constituição catarinense para garantir que possam indicar diretamente e de forma obrigatória cerca de R$ 5 milhões no orçamento anual. Venderam a ideia de que a emenda impositiva daria independência ao parlamento e garantiria que o governador de plantão não discrimine opositores na liberação de recursos.

A semana que passou foi uma ducha de água fria em quem acreditou nessa conversa. Acuado pela denúncia oferecida pelo procurador-geral Rodrigo Janot, o presidente Michel Temer (PMDB) apegou-se ao velho estilo de cooptação baseado na liberação de verbas aos parlamentares. Em Brasília, a emenda parlamentar impositiva vale desde 2015 — enfiada goela abaixo de uma já frágil Dilma Rousseff (PT).

Ficou claro que mesmo com a obrigatoriedade, a velocidade de liberação do gasto apontado por deputados e senadores ainda depende da generosidade do Planalto. O peemedebista ignorou todos os discursos sobre ajuste fiscal e resolveu adular seus eleitores — os que o colocaram no poder em abril de 2016 e que têm o poder de mantê-lo ao rejeitar a denúncia. Bateu recordes de liberação de emendas em junho e é provável que o ritmo se mantenha até ele se sentir novamente seguro na cadeira presidencial.

A negociação que aconteceu em Brasília na última semana e que culminou na rejeição da denúncia na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara é o padrão que se verifica toda vez que cabe aos parlamentares definir alguma ruptura institucional. Votos favoráveis, contrários e até estranhas ausências são costuradas através de argumentos, liberação de verbas e outros instrumentos menos republicanos. 

Foi assim na frustrada votação das Diretas Já em 1984, no impeachment de Fernando Collor em 1992, no quase impeachment do ex-governador catarinense Paulo Afonso Vieira (PMDB) em 1997 e, mais recentemente, no afastamento de Dilma Rousseff ano passado. Ainda estão frescas na memórias as lembranças da feira livre instalada em Brasília — com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) instalado em um quarto de hotel e o então vice-presidente Temer no Palácio do Jaburu, ambos recebendo os mesmos parlamentares com o objetivo de conquistar seus votos. A que preço, pouco se sabe.

O que fica da semana que passou é a constatação de que a força da caneta do Poder Executivo nunca deve ser subestimada e que os instrumentos criados para dar-lhe limites podem acabar virando armas a mais, como aconteceu agora com as emendas impositivas. Além disso, também fica a sensação de que Temer foi longe demais em sua luta para permanecer no cargo. 

A atuação dos partidos aliados, substituindo sem o menor constrangimento 12 deputados que anunciaram a intenção de votar pela aceitação da denúncia — os catarinenses Esperidião Amin (PP) e Jorginho Mello (PR) entre eles — faz com o presidente aja como o chefe de quadrilha que veementemente nega ser. A feira livre ficou evidente aos olhos do público e desacredita ainda mais a já desgastada classe política. Temer forçou a mão para garantir uma vitória simbólica na CCJ e tudo indica que precisará manter essa postura para vencer em plenário, onde realmente será jogado o jogo.

Na mitologia grega existe uma expressão conhecida como "Vitória de Pirro", usada para designar vitórias obtidas a alto custo. Eram tantas as perdas do exército comandado pelo rei Pirro na Batalha de Heracleia, em 280 a.C, que ele teria comentado: "mais uma vitória como esta e estarei arruinado". No caso de Temer, sua ruína em praça pública carrega todo o país a um incerto 2018.

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