Em Florianópolis, Ciro Gomes critica candidatura de Lula: "não teremos um minuto para discutir o país" - Política e Economia - Santa

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Presidenciável23/08/2017 | 14h55Atualizada em 23/08/2017 | 21h44

Em Florianópolis, Ciro Gomes critica candidatura de Lula: "não teremos um minuto para discutir o país"

Em Florianópolis, Ciro Gomes critica candidatura de Lula: "não teremos um minuto para discutir o país" Divulgação / PDT-SC/PDT-SC
Ciro Gomes foi acompanhado pelo secretário-geral do PDT nacional, o catarinense Manoel Dias, ex-ministro do Trabalho Foto: Divulgação / PDT-SC / PDT-SC

Em roteiro pelo país para construir sua terceira candidatura à Presidência da República, o ex-ministro e ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) afirmou em Florianópolis que se o ex-presidente Lula (PT) disputar a eleição "não teremos um minuto para discutir o futuro do país".

— Se ele entra na disputa, será ódio, amor e paixão despolitizados sobre o Lula – disse o presidenciável pedetista em entrevista coletiva na manhã desta quarta-feira no gabinete do deputado estadual Rodrigo Minotto, na Assembleia Legislativa.

A conversa com os jornalistas marcou o início de uma série de compromissos na capital catarinense que será encerrada às 19 horas quando apresenta a palestra "Alternativas para a crise brasileira", no auditório da Udesc. Na entrevista, Ciro Gomes lembrou das disputas de 1998 e 2002, quando terminou em terceiro e quarto lugar nas disputas - a primeira vencida por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no primeiro turno e a outra por Lula, em segundo turno contra o tucano José Serra.

— Lamentavelmente o Brasil não mudou (em relação a 1998 e 2002), a não ser para ficar clara a necessidade de construir um terceiro caminho. Nessa polarização que reparte em ódio o país entre coxinhas e mortadelas não cabe o Brasil.

Ciro classificou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e a posse de Michel Temer na presidência como "golpe de Estado", mas fez críticas à forma como a petista conduziu a crise econômica e política que levaram a sua deposição.

— A Dilma pediu para morrer. Perdeu o lado dela e foi bajular o lado que queria a caveira dela. Ficou sem lado.

Leia, em tópicos, o que disse Ciro Gomes em Florianópolis:

Depois de apresentar-se como opção a Lula e PSDB em 1998 e 2002, o espaço da candidatura Ciro Gomes no Brasil de hoje
Lamentavelmente o Brasil não mudou (em relação a 1998 e 2002), a não ser para ficar clara a necessidade de construir um terceiro caminho. Nessa polarização que reparte em ódio o país entre coxinhas e mortadelas não cabe o Brasil. Isso é uma exportação da uta paroquial de São Paulo, é só ver o comportamento do Dória (prefeito paulistano João Dória, do PSDB) com o Lula. Essa radicalização violenta impõe ao Brasil inteiro essa situação. Quando o Lula era uma eminência que negava tudo que ali estava, denunciava a corrupção, denunciava o caráter antissocial da política, ok. Não cabia que eu fosse eleito, tenho humildade para entender que era a vez dele. Mas agora? De novo? Estou com a foto de hoje, lá em Alagoas, quem estava do lado do Lula? Renan Calheiros (senador, PMDB-AL). Como que a gente diz para o povo que teve um golpe de Estado no Brasil? Se houve, foi praticado pelo Senado, que era presidido pelo Renan Calheiros, que hoje é presidido pelo Eunício Oliveira (PMDB-CE), apoiado pelo Lula. Para mim, chega dessa contradição. Para quê? Para repetir mais do mesmo? O Brasil não aguenta. Se ele entra na disputa, nós não teremos um minuto para discutir o futuro do país. Será ódio, amor e paixão despolitizados sobre o Lula.

A construção da candidatura
Estou criando um novo caminho. Estou comovidamente convencido de que sou mais intérprete do que construtor desse novo caminho. Quem produz e trabalha no Brasil sabe que as coisas precisam mudar. Em 2002, existia como negação de Fernando Henrique e sua turma um não experimentado PT. Era perfeitamente compreensível que a população se encantasse por aquela utopia social, aquele moralismo. Agora, cadê a utopia? A população vai procurar coisas concretas, segurança, experiência. Evidente que isso tudo é uma dinâmica. Não sei se conseguirei demonstrar como o mais treinado. Mas o ambiente está para mim. Cadê a Marina (Silva, da Rede)?. Cadê o Aécio (Neves, senador do PSDB, denunciado na Lava-Jato)?. O Alckmin (Geraldo Alckmin, governador de SP, do PSDB) está enrolado numa confusão dentro do partido, a guerra é feia lá dentro. Eu estou aqui. Amanheço em Chapecó, venho a Florianópolis, palestra, palestra, palestra, amanhã vou para o Rio Grande do Sul. Não fico acordado de madrugada com medo de aparecer em lista. Não tem delação premiada que me abale. O negócio está para mim. Vamos ver se consigo.

Efeito da candidatura de Lula
Eu não gostaria de ser candidato se o Lula for. Isso não quer dizer que eu deixarei de ser. Quem decide se sou ou não é meu partido. Vontade eu tenho muita. Eu tinha deixado a política. Ajudei a preparar a nova geração, que está batendo um bolão no Ceará. Tinha saído, aí veio um golpe e considero uma responsabilidade minha muito grande por ser quem eu sou. Sou experiente. Ajudei a fazer o Plano Real quando o PT ficou contra, ajudei o Lula quando o PSDB ficou contra. Abri mão de ser candidato para ajudar. Fui enganado e continuei do mesmo lado. Tudo certo, zero problema, estou feliz da vida, tenho um filho de um ano e oito meses. Mas o Brasil é o sentido da minha vida e é razoável propor essa alternativa.

O impeachment de Dilma
No impeachment, a Dilma tinha perdido o povo. Ela desastrou a economia e em vez de chamar o povo para entender as causas do desastre econômico, que tem a ver com a queda dos preços internacionais, chama um cara do outro lado, dos bancos, cuja experiência anterior tinha sido quebrar o Estado do Rio de Janeiro, e bota ministro (o economista Joaquim Levy). O cara chega lá e coloca em 14,25% a taxa de juros, arrebenta com a economia e nós, que éramos aliados dela, ficamos como? Imagina eu, Ciro Gomes, defender o governo Dilma com Levy ministro. A Dilma pediu para morrer. Perdeu o lado dela e foi bajular o lado que queria a caveira dela. Ficou sem lado. No presidencialismo à brasileira, uma pessoa que cai no primeiro ano de mandato porque não consegue reunir um terço dos deputados, com um presidente bandido (Eduardo Cunha, presidente da Câmara), só a inexperiência mesmo (para justificar). Ou talvez falta de apetite mesmo. Ela não reagiu, se deixou imolar.

A Operação Lava-Jato
A Lava-Jato pode ser uma virada de página histórica, colocando fim na lógica de impunidade com que o banditismo de alto status se comportou ao longo da vida brasileira. Isso é transcendentalmente importante. O problema é que ela começou a ter um sucesso tão rotundo que essa meninada passou a gostar dos aplausos. Todo dia estão na televisão com entrevista coletiva e fazendo bobagens. Estão semeando nulidades. Já tem 30% das sentenças reformas no tribunal regional. Quando chegar no terceiro grau e a imprensa estiver descuidada porque outra novela vai surgir, eu temo que ela seja extensamente anulada. Aí vai ser uma decepção muito grande. Eu luto, cada arbitrariedade que eles falam eu denuncio, porque preciso desesperadamente que esse negócio funcione. Só isso pode equalizar minha disputa nacional.

Reforma política
O povo tem duas queixas da sua representação política. Uma é essa relação podre de dinheiro com política, que não precisava ser assim. A solução deveria ser baratear as campanhas e propor uma regulação mais transparente da presença do dinheiro com a política. O que eles estão propondo encare as campanhas. Numa hora em que se exige amargura, mais do que sacrifício, da sociedade brasileira, parece ser um bofete no nosso rosto criar um fundo de bilhões de reais para financiar um sistema eleitoral que só existe no Afeganistão e que destrói a possibilidade de renovação, que é tudo que queremos hoje. Que acaba com o voto identitário, a causa das mulheres, a causa ambiental, LGBT, afrodescendente, esses votos identitários pedem qualquer chance de respirar. A segunda coisa que o eleitor quer é alguma coisa que garante que o candidato seja a mesma pessoa depois de eleito. No dia seguinte de se eleger, ele faz tudo ao contrário. E a população tem que guardar o nome pra ver se quatro anos reelege o cara. Deveria ser instituído o sistema de recall e isso não estão discutindo. Sistema eleitoral tanto faz. Quando eu era deputado federal, a Alemanha (que adota sistema distrital misto com listas fechadas) mandou uma representação para estudar o voto proporcional brasileiro, que era o que mais permitiu renovação na avaliação deles. O sistema deles enrijecer o sistema representativo. Nenhum sistema é perfeito, todos são vulneráveis. Advogo o distrital misto, mas para mim tanto faz.

Expectativa de renovação no parlamento
Este tipo de Câmara vai mudar na eleição que vem, tenho certeza. Isso se não mudar para distritão. Se entrar o distritão é tragédia. Aí precisa ter outra dinâmica, muito mais energizada, muito mais conflituosa, mas é também possível. Mas eu acredito em renovação grande do parlamento. Além disso, todos os presidente eleitos, pela força do presidencialismo, tem seis meses de vênia. O Collor conseguiu aprovar o confisco da poupança por medida provisória. Então, tem que aproveitar esses seis meses e fazer o que você quer. Não é justo dizer que o Brasil não se reformou por causa do Congresso. As únicas reformas que Fernando Henrique propôs foram a eliminação do conceito de empresa nacional e a reeleição que ele comprou. Passaram, emendas constitucionais. Não propôs nada no modelo tributário, nada modelo previdenciário quando era um problema muito menor. Qual foi a proposta de reforma que o Lula fez e que o Congresso não deixou passar? Brinco com ele: "Lula, a única reforma que você fez no país foi a tomada de três pinos". O resto, tudo está sendo desfeito. Dilma, qual reforma propôs? O Congresso é reativo, mas pode ser coagido democraticamente se você propuser e entrar em uma dinâmica de pressões e contrapressões. Bastou fazer uma pressãozinha e nós detonamos a reforma da previdência. Porque houve êxito na greve geral de 28 de abril. Era um assunto concreto, a população mexeu-se, o Congresso colocou o pé atrás. O primeiro instinto deles é sobrevivência. Eles só fazem o que estão fazendo porque confiam que o povo não está vendo ou não vai se lembrar. Um presidente da República precisa colocar o povo na jogada. Lembro do governo Itamar Franco. Ele não negociou com esses bandidos e fez o Plano Real.

A experiência como deputado federal
Em 2006 eu fui o deputado federal mais votado do país (proporcionalmente, no Ceará) Foi a pior experiência da minha vida pública. Fui colega do Michel Temer, presidente, colega do Eduardo Cunha, dando as cartas. Eu não dava um dia de serviço à sociedade brasileira. Ali a escolha era às avessas, quanto mais picareta, mais analfabeto, mais despreparado (o parlamentar), mais prestígio se dava. Eu não tive direito de relatar um projeto relevante. O PT tinha ciúme de mim, etc. Todo dia eu botava uma gravata e ouvia oito horas de conversa fiada. Em 2008 explodiu a maior crise da história do capitalismo mundial, arrebentou as contas do país e a Câmara Federal não deu um minuto de atenção a esse assunto. A turma acha que corrupção é um problema, e é, mas a alienação é muito mais grave. Ali parece um microuniverso de alienígenas, que não tem nada a ver com o Brasil. No 18º dia eu fui à tribuna e disse: "senhor presidente, senhores deputados, não sei se vossas excelências estão sabendo, mas tem um crise internacional que vai arrebentar com o país". No outro dia, o Lula faz uma medida provisória para o Minha Casa Minha Vida ou algo do gênero. Temer despacha para Eduardo Cunha, que faz uma emenda criando um crédito devolução de IPI de exportação retroativo a 1973 que assaltava os cofres públicos em R$ 80 bilhões. Pedi a palavra, ¿presidente, pela ordem, olha o que está acontecendo¿. Cunha olhou para mim, falei. "Não reaja, não. Você é um ladrão. O lobista que te comprou está ali de gravata amarela". Essa era minha vida na Câmara.

Reforma tributária
A carga tributária nominal não dá para subir mais. Mas ela é extremamente regressiva. Um pobre, quando faz uma ligação de celular, paga 30% de imposto. Quando compra um remédio, paga 28%. A carga tributária nominal sobre os pobres e a classe média é de 42%, que é uma exorbitância. E a carga tributária sobre os ricos não passa de 6%. Esse é o grande conflito político, mas economicamente a gente tem como fazer uma redução de tributos nas incidências sobre investimento, produção e consumo popular. E incrementar os tributos sobre transferência de renda geracional. A república bolivariana dos Estados Unidos da América do Norte cobra 40% de imposto sobre herança. O quebrado Rio Grande do Sul cobra 4%. Ceará cobra 8%, que é o limite da constituição brasileira. Por quê? O Brasil e a Lituânia são os únicos países que não cobram imposto sobre dividendos e lucros. Qual a explicação? Depois, uma CPMF (imposto sobre transações bancárias) com alíquota de 0,38%, partilhado com Estados e municípios, vinculada à inflexão das dívidas. Esses três movimentos superam o déficit brasileiro em dois anos. Fácil de fala, duríssima batalha política de fazer porque interesses difusos reproduzem o discurso de que o Brasil tem impostos demais que os ricos impuseram.

Projeto de desenvolvimento para o Brasil
Vou apresentar um projeto nacional de desenvolvimento com começo, meio e fim. Tem três tarefas de fundo: elevar o nível de formação de capital doméstico para não dependermos de ciclos internacionais de capital especulativo; estabelecer uma coordenação estratégica com prazos e metas com empresariado e universidade; uma estratégia de investimento em gente. Acabei de visitar o Chile e estudei algumas coisas da Colômbia. Esses dois países têm cerca de 30% a 40% dos jovens de 26 a 35 anos matriculados no ensino superior. O Brasil tem cerca de 16%. São essas três tarefas de fundo. Temos as tarefas da virada. O país não consegue crescer hoje por três razões. Primeira, o passivo estrangulado das empresas. Elas chegaram a nível tal de endividamento por causa dessa política estúpida de juros altos que não conseguem faturamento nem para pagar a conta do banco. Aí não sai investimento, emprego e desenvolvimento.

Ligações político-partidárias com SC
Santa Catarina não é o lugar em que somos mais fortes, mas temos uma presença muito respeitável a partir do Manoel Dias, que é secretário-executivo (do PDT nacional), velho amigo de Leonel Brizola, foi ministro do Trabalho, sofreu as perseguições da ditadura. Isso nos abre muitas portas. Desde o governador Raimundo Colombo, que é um velho amigo, até o ex-senador Jorge Bornhausen, que já me apoiou lá atrás. O Berger (senador Dário Berger, do PMDB) também me apoiou lá atrás.

Visão de Ciro sobre Santa Catarina
É uma relação de muita afeição minha. Venho a SC desde muito cedo tentar entender como vocês, na contramão do Brasil, mantiveram a propriedade dividida e ainda assim ganham escala através do associativismo, tecnologia, tem acesso a mercado. Tinham uma agroindústria importante, agora tem um polo tecnológico que é um dos mais importantes do país. Avançam nos serviços, tem o turismo. Enfim, é um Estado arrumado do Brasil. Tem várias cidades-polo, ao contrário da macrocefalia que acontece no resto do Brasil, com capitais gigantescas, faveladas. No Ceará, a região metropolitana de Fortaleza tem 3 milhões de habitantes e a segunda maior cidade tem 300 mil. E SC tem uma economia que não colocou todos os ovos numa cesta só e que vai atravessando as dificuldades.




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