A distopia brasileira - Política e Economia - Santa

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Upiara Boschi09/09/2017 | 13h44Atualizada em 09/09/2017 | 13h57

A distopia brasileira

Em 2010, Geddel Vieira Lima recebeu uma polêmica condecoração em SC. Passados sete anos, está preso após ter R$ 51 milhões descobertos em um apartamento. Entre um episódio e outro, a política brasileira foi desconstruída como ninguém poderia prever

Sete anos e meio antes de aterrissar em Brasília como o ex-ministro apanhado com R$ 51 milhões em um discreto apartamento em Salvador, Geddel Vieira Lima (PMDB) chegava a Florianópolis para ser agraciado com a mais importante condecoração do Estado: a medalha Anita Garibaldi. Entre um desembarque e outro, o Brasil mudou muito mais do que podia ser projetado à época.

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Era 10 de março de 2010 quando Geddel recebeu do então vice-governador Leonel Pavan (PSDB) a maior distinção concedida pelos catarinenses. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) batia recordes de popularidade e trabalhava com obsessão na tarefa de eleger a semidesconhecida ministra Dilma Rousseff (PT) como sua sucessora. Nas pesquisas, quem despontava era o governador paulista José Serra (PSDB).

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As negociações pré-eleitorais fervilhavam. Diante  da dúvida sobre as chances de Dilma, surgiam como opção ao eleitorado lulista nomes como Ciro Gomes (PSB na época) e Marina Silva (ainda no PV). O presidente se movimentava para evitar as candidaturas que nasciam do seio de seu governo. Ninguém, nem mesmo Serra, queria se apresentar com anti-Lula. Seria suicídio eleitoral no Brasil de 2010.

Em 2010, Geddel era ministro de Lula e vinha a SC receber a medalha Anita Garibaldi das mãos do tucano Pavan Foto: Reprodução / Diário Catarinense

Em Santa Catarina, Geddel foi recepcionado por Pavan porque o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), autor do decreto que concedeu a medalha, estava em viagem oficial. A continuidade da aliança entre PMDB, PSDB e o DEM do então senador Raimundo Colombo era a incógnita da eleição local. Nos bastidores, especulava-se que Geddel vinha trazer os apelos do deputado Michel Temer (PMDB-SP), futuro vice, para que os peemedebistas catarinenses deixassem os tucanos e aderissem ao projeto Dilma.

Na última quarta-feira foi descoberto o apartamento em que Geddel guardaria R$ 51 milhões em dinheiro vivo Foto: Reprodução / Diário Catarinense

A justificativa da medalha causou polêmica no Estado, especialmente no Vale do Itajaí. Geddel era ministro da Integração Nacional no segundo mandato de Lula e cabia à pasta a ajuda federal para reconstrução dos estragos das enchentes de 2008. O dinheiro – R$ 400 milhões – teria demorado a chegar por entraves colocados pelo próprio ministro enquanto pipocavam denúncias de repasses exagerados do ministério para obras na Bahia, seu berço político. 

Geddel levou de Santa Catarina a medalha – para desconforto de Anita Garibaldi – e seguiu sua controversa e notória trajetória política. Dilma seria eleita presidente em outubro daquele ano e o ex-ministro ficou em terceiro lugar na disputa pelo governo da Bahia, mas foi recompensado com uma vice-presidência do Banco do Brasil. Em Santa Catarina, LHS juntou a tropa toda em torno de Colombo e Serra. Depois de eleito, o demista cansou de ser oposição ao Planalto, ajudou a fundar o PSD e passou a habitar a confortável órbita de partidos em volta do poder petista à procura de farelos de benesse.

Se naquela época alguém previsse aos donos e usufrutuários do poder como estaria o país em setembro de 2017, seria encarado como um mero escritor de ficção ao estilo de um 1984 ou um Admirável Mundo Novo. As manifestações de 2013 que desligaram o filtro otimista do país, a ressaca da Copa do Mundo no Brasil, a Operação Lava-Jato desnudando em capítulos a hipócrita e promíscua relação entre os políticos e os financiadores de suas eleições; muitos são os componentes que colocaram o país de cabeça para baixo em tão pouco tempo.

Na quarta-feira, quando o Brasil descobriu o bunker dos R$ 51 milhões do condecorado Geddel, também viu e ouviu o ex-ministro Antonio Palocci (PT) corroborar todas as denúncias de corrupção imputadas ao ex-presidente Lula e a participação da impichada Dilma em um suposto "pacto de sangue" com a empreiteira Odebrecht. Sonho do PT e de quem acredita em soluções mágicas para voltar a um passado não tão distante, a candidatura de Lula em 2018 parece implodida — por desgaste ou barrada nos tribunais. No Planalto, um Michel Temer cada vez mais impopular comemora os excessos da Lava-Jato como se fossem salvo-conduto para a continuidade do mandato que conspirou para herdar.

Faltam 13 meses para as eleições de 2018 e a distopia brasileira ainda está longe de apontar um final.

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