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Segurança05/01/2017 | 11h10Atualizada em 05/01/2017 | 17h31

Região do Papaquara, em Florianópolis, tem histórico de vulnerabilidade, violência e tráfico

Cenário do homicídio de turista gaúcha na madrugada do Ano-Novo, comunidade do norte da Ilha vive dias de tensão

Região do Papaquara, em Florianópolis, tem histórico de vulnerabilidade, violência e tráfico Cristiano Estrela/Agencia RBS
Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

A comunidade do Papaquara, que ganhou destaque no noticiário policial nesta semana após o assassinato da turista gaúcha Daniela Scotto, 38 anos, na madrugada do último domingo, está longe de representar uma típica favela de Florianópolis.

Não há morros ou caminhos inacessíveis para veículos e viaturas policiais, por exemplo. A localidade onde a mulher foi baleada se resume a algumas quadras, divididas por duas vias principais e próximas à rodovia SC-403, no bairro Vargem Grande, norte da Ilha. Há ruas asfaltadas, iluminação pública, pontos comerciais, igrejas e um colégio estadual próximo da comunidade.

Hoje lembrada por episódios recentes de violência — em novembro, um corpo foi encontrado carbonizado em um terreno usado para o depósito de lixo —, o que caracterizou a comunidade nos últimos anos foi a ocupação desordenada e um histórico de vulnerabilidade.

Registros da Secretaria de Habitação e Saneamento Ambiental de Florianópolis datam a chegada das primeiras famílias no local em 2002, quando sequer havia notícia de facções criminosas no Estado. Muitos haviam deixado o Paraná e o Rio Grande do Sul em busca de oportunidades de trabalho.

Logo nos primeiros anos de ocupação, entre 2003 e 2004, a prefeitura chegou a despejar famílias por estarem em área irregular, o que não impediu novas invasões. Em janeiro de 2011, outra operação do município colocou abaixo edificações irregulares sobre áreas de preservação e de risco devido às ocorrências de enchentes e de doenças causadas pelo acúmulo de lixo.

Semanas depois, a comunidade foi inundada por fortes chuvas e mais de 40 famílias tiveram de ficar abrigadas no Colégio Estadual Jacó Anderle. A prefeitura proibiu o retorno às residências e demoliu as construções. Para que buscassem moradia em áreas regularizadas, as famílias atingidas tiveram direito à indenização de R$ 10 mil e receberam R$ 400 por seis meses de aluguel social.

Como pelo menos um terço dos chefes de família trabalhavam com reciclagem, parte da população local se restabeleceu em áreas próximas do mesmo loteamento para continuar com a atividade. Hoje, como se sabe, o Papaquara ainda é marcado por ocupações irregulares e por famílias carentes.

— É uma comunidade boa. Não se pode criminalizar uma região por causa desse ocorrido. Diversos crimes acontecem em outros locais. A polícia, os projetos sociais, os órgãos competentes têm de fazer o trabalho para a comunidade voltar à vida normal. São famílias de bem que sofrem com a violência por parte de algumas pessoas — reforça o presidente da Associação de Moradores de Canasvieiras, Sebastião dos Santos.

O entendimento é de que a maioria dos moradores se conhece e se respeita. O problema, avalia o presidente da associação, é que as invasões são constantes e não há como saber as intenções de todos que chegam.

Tráfico como empreendimento

O crime na madrugada de domingo, além de ter como reflexo a presença permanente da Polícia Militar nos principais acessos ao Papaquara, trouxe à tona relatos de regras impostas por criminosos armados: moradores eram obrigados a se identificar quando cruzavam barreiras improvisadas durante a noite. Há suspeitas de que o tiro disparado contra a turista ocorreu porque o protocolo (abrir as janelas e ligar a luz interna do automóvel) não foi seguido.

Na avaliação do especialista em criminologia e professor da Univali, Alceu de Oliveira Pinto Júnior, a comunidade está mais exposta à atuação dos criminosos por ter surgido de forma desorganizada.

— Estar à margem da sociedade as coloca numa situação de maior fragilidade. Não tem endereçamento organizado das pessoas, controle de quais são as construções irregulares ou regulares. Esta desorganização facilita o incremento da criminalidade — aponta o especialista.

Ao contrário do secretário do Estado da Segurança Pública, César Grubba, que considerou o episódio uma "fatalidade", o professor da Univali destaca que já se sabia dos riscos porque as forças de segurança haviam mapeado o local como área de conflito.

— Aquele traficante romantizado, que era da comunidade e por muitas vezes substituía o Estado, está deixando de existir. Ele dá lugar para essa organização que administra o comércio de drogas com funções absolutamente organizadas, tratando aquilo como empreendimento, afastando-se da própria comunidade. Hoje, a comunidade torna-se refém — analisa.

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