Polícia compara a região do Monte Cristo, na Capital, à Faixa de Gaza - Segurança - Jornal de Santa Catarina

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Medo11/02/2017 | 07h03Atualizada em 11/02/2017 | 07h03

Polícia compara a região do Monte Cristo, na Capital, à Faixa de Gaza

Crime se impõem na comunidade há décadas mesmo com investigações e prisões

Polícia compara a região do Monte Cristo, na Capital, à Faixa de Gaza Leo Munhoz/Agencia RBS
Novo Horizonte em primeiro plano e Chico Mendes ao fundo: comunidades sofrem com ação de criminosos. Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Um trecho do acesso a Florianópolis, às margens da Via Expressa, tem levado nos últimos meses um rótulo ingrato e indesejável: Faixa de Gaza. A expressão vem sendo utilizada no meio policial para dimensionar o problema que impera na região do bairro Monte Cristo, na área continental da cidade, comparando à estreita faixa de território palestino encravada em Israel, palco de disputas sangrentas entre os dois povos e marcada pela pobreza e pela superpopulação.

Conflitos, tiroteios, execuções, toques de recolher e intenso tráfico de drogas amedrontam há décadas a população, que vive sob a lei paralela de criminosos no bairro. Agora, suspeitas de assaltos a motoristas, incluindo denúncias de arrastões que não se confirmaram no entorno, assustam ainda mais. A Polícia Militar intensificou ações e operações, mas ainda não há divulgação de nenhum plano detalhado que abranja políticas públicas e de enfrentamento macro para reverter a entrada dos jovens do mundo do crime.

Só nos primeiros meses de 2017, o Monte Cristo foi palco de oito assassinatos: seis na comunidade Novo Horizonte e dois na Chico Mendes. A cada fim de ano, policiais lamentam ter que computar o saldo das mortes em cada localidade e fazer a inevitável comparação de quem ganhou ou perdeu no trágico panorama de duelo.

Na última quinta-feira, até tabletes de maconha escondidos no telhado de uma creche foram encontrados pela PM ao cumprir buscas em uma operação. Espaços têm sido utilizados por criminosos como depósito de entorpecentes e armas. Um deles é o complexo comunitário conhecido como "Carandiru", um prédio com 30 apartamentos, onde bandidos costumam se esconder e impor terror aos moradores.

Nas últimas semanas, o quadro piorou com trocas de tiros semanais, carros incendiados e um ataque com foguetes ao batalhão da Polícia Militar. Houve ainda disseminação de mensagens de pânico lançadas em redes sociais.

A partir de investigações policiais que tramitam na Justiça, incursões e o relato de moradores, o Diário Catarinense constatou que a comunidade está exposta a um mal sem nenhum indicativo de solução a curto, médio ou longo prazo.

Acusados serão ouvidos pela polícia na próxima sexta-feira 

Na próxima sexta-feira, 22 pessoas serão interrogadas pela Justiça no Fórum da Capital acusadas de pertencer à organização criminosa presa em maio de 2016 por crimes na Novo Horizonte. Elas foram identificadas e investigadas naquele ano pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco). Estão presas por essa apuração 20 pessoas, entre elas Gabriel da Silva Ferreira, o Biel, 21 anos, e a mulher dele, Chellen Moana de Jesus, 26. Os jovens foram considerados pela PM e pela promotoria como líderes do crime na comunidade. Biel aparece em fotografias empunhando armas e em escutas telefônicas articulando ações do tráfico, armas e execuções.

Filho de Valdomi Antônio Ferreira, o ¿Bombril¿, que também está preso, Biel contava com vasta rede de contatos em funções hierarquizadas e distribuídas, com aliciamento de crianças e adolescentes para o comércio de drogas e fornecimento de armas para a segurança dos pontos de vendas de entorpecentes. A família Bombril, conforme a polícia, é suspeita de comandar há anos pontos de venda de crack, cocaína e maconha no Monte Cristo. As defesas de Biel e Chellen negam que os dois estejam envolvidos em crimes.

A ação penal traz 1,6 mil páginas com uma ampla radiografia do crime na Novo Horizonte, onde os integrantes do grupo que amedrontava moradores se intitulam camikazes do crime. Policiais afirmam que eles se aliaram ao Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e travam duelo com traficantes da Chico Mendes, controlada por criminosos do rival local Primeiro Grupo Catarinense (PGC).

Crueldade com moradores

A investigação revela a crueldade dos traficantes com os moradores. Para impor o terror, os criminosos ditam normas, toques de recolher e ordenam execuções sumárias quando há transgressões das condutas impostas na lei do silêncio e da cegueira existentes.

Neste contexto, consta na apuração que cidadãos honestos estão sendo alvos de execuções sumárias constantes. Moradores afirmam que olheiros do tráfico e viciados que não oferecem perigo ou até andarilhos são as principais vítimas assassinadas. Além do duelo entre as facções, o processo judicial mostra que o bairro se tornou porto seguro para o esconderijo de homicidas e assaltantes locais e de outros Estados que contam com a proteção da organização criminosa.

Centro de convivência vira cracolândia

As denúncias mostram que um centro de convivência construído pela prefeitura está, em parte, dominado pelo tráfico e virou cracolândia, além de depósito de armas e entorpecentes. Pelas ruas do bairro, há feira livre de drogas em vias públicas durante o dia. Por causa dos constantes tiroteios e ataques, PMs têm sido orientados a se deslocarem apenas com reforço e mais de uma viatura. Na última quinta-feira, o Bope fez uma grande operação na Chico Mendes e oito pessoas foram presas.

Em algumas vias críticas foram constatadas barricadas para impedir a passagem de veículos. Casas e pontos comerciais são utilizados por traficantes com o objetivo de atrair usuários. Há marcas de tiros em casas, postes, placas, muros, colégios e de calibres variados, demonstrando o pode de fogo. Na investigação da Novo Horizonte, a operação do Bope gravou vídeos do comércio de drogas em meio a crianças sendo carregadas pelas mães em plena luz do dia.

O bando da Novo Horizonte contava com a ação de presos da Penitenciária de Florianópolis na execução dos crimes. As conversas telefônicas mostraram que havia comunicação com celulares da cadeia. São flagradas também venda de drogas para familiares levarem a presos.

Além das ameaças ostensivas de criminosos pelo bairro, agora o crime organizado da região tem usado as redes sociais para disseminar o pavor e o medo. A polícia tem informações e apurações indicando que traficantes utilizam de mensagens virtuais em grupos como forma de instalar o terror e enganar a polícia para a facilitação de ataques.

A Polícia Rodoviária Federal informou que designou o grupo que cuida do policiamento nos seis quilômetros de extensão da Via Expressa para apoiar a PM nas ações.

— Há muita boataria e o crime planeja causar o pânico. Diante de suspeitas, a pessoa pode ligar ao 191 (PRF) e ver se a situação procede realmente — alerta o inspetor Adriano Fiamoncini.

Monte Cristo

Fica nas margens da Via Expressa (à direita na saída de Florianópolis em direção à BR-101).

Abriga várias comunidades, as principais são Chico Mendes e Novo Horizonte

Moradores: 15 mil

8 homicídios em 2017 (2 na Chico Mendes e 6 na Novo Horizonte)

13* mortes em 2016 (* número não totalizado no ano)

As facções e o duelo
Chico Mendes - Primeiro Grupo Catarinense (PGC)
Novo Horizonte - Primeiro Comando da Capital (PCC)

Policiamento
Polícia Militar - Cuida da área o 22º Batalhão. No dia 30 de janeiro, bandidos lançaram foguetes em direção da unidade.
Polícia Civil - 3ª Delegacia da Polícia Civil, em Capoeiras, é a responsável pela região. Tem poucos policiais. A Delegacia Geral prometeu enviar mais agentes e um delegado.

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