Ausência do Estado e falta de infraestrutura facilitam a atuação de facções em áreas empobrecidas - Segurança - Jornal de Santa Catarina

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DIA S22/08/2017 | 03h01Atualizada em 22/08/2017 | 10h59

Ausência do Estado e falta de infraestrutura facilitam a atuação de facções em áreas empobrecidas

Reportagem do DC mostra a situação em Florianópolis, Criciúma, Navegantes e Chapecó

Um cenário de vulnerabilidade social agrava e favorece o crescimento da criminalidade em Santa Catarina. Áreas empobrecidas, sem planejamento, sem infraestrutura e poucas ações educacionais ou sociais do poder público foram ocupadas por facções criminosas. Sem a presença estatal ou dos órgãos municipais, bairros inteiros viraram pontos de atuação de traficantes.Para impor medo à população, eles dominam mediante o uso de armas, leis próprias e crimes graves, como assassinatos. Confira abaixo a situação em Florianópolis, Criciúma, Navegantes e Chapecó:

Avanço do crime na Capital

Na Grande Florianópolis, historicamente bairros de pouca atenção do poder público se transformaram em nichos de atuação do crime organizado. Começou com a ocupação do tráfico de drogas nos morros do Maciço, na área central da Capital, e se expandiu para bolsões do norte da Ilha e Continente, hoje pontos com recorde de assassinatos no ano mais sangrento vivido por Florianópolis.

Primeiro, foram criminosos locais que dominaram a população. Hoje em dia, a situação piorou com a vinda de uma facção criminosa de São Paulo. Além de impor por si só o temor da atuação do crime, esses bandidos ainda disputam o comando do crime com os bandos locais. Resultado: homicídios, execuções, tiroteios constantes e mais recrutamento de pessoas para o crime pelos dois lados.

No Continente, o bairro Monte Cristo vive essa realidade com várias comunidades reféns de criminosos em disputa no comando de pontos de drogas. No norte da Ilha, são regiões assim: Siri, Papaquara, Vila União e Morro do Mosquito. A polícia costuma reagir à ação, ou seja, atua depois que os confrontos acontecem. Assim, sem a prevenção e a presença ostensiva, as crises com ondas de violência vão e voltam e acabam atingindo inocentes, como no caso da turista gaúcha Daniela Scotto de Oliveira Soares, 38 anos, morta em1o de janeiro de 2017 ao entrar por engano com o carro na comunidade do Papaquara.

Falta de assistência em Criciúma

Em Criciúma, Sul do Estado, os bairros com maior vulnerabilidade são áreas que começaram com ocupação irregular, como as comunidades de Renascer, Boa Vista, Cristo Redentor, Progresso e Tereza Cristina, conforme o secretário municipal de Assistência Social, Paulo César Bitencourt.

Os próprios serviços públicos chegam com mais dificuldade nesses locais há pouco interesse de empresários em investir nessas localidades. Uma linha de ônibus, por exemplo, a empresa não vai transitar por ruas que não têm o tamanho mínimo exigido.

Segundo Bitencourt, por serem mais esquecidos de certa forma, acabam atraindo pessoas do crime, que se infiltram entre as famílias e fica para trás do ponto de vista do desenvolvimento. Os moradores mesmo não possuem informações sobre quais serviços e programas têm direito.

– Os bolsões de pobreza que se criam acabam dando margem à essas ações criminosas, pois nesses locais não há um olhar muito atento por parte do restante da sociedade – reconhece o secretário.

O bairro Cristo Redentor, região conhecida por casos de violência e tráfico de drogas, tem na vizinhança uma das maiores entidades sociais da cidade, a Associação Beneficente Abadeus, onde a comunidade têm opções de lazer. No Boa Vista, o prédio de uma extinta escola foi transformado em sede do Pelotão de Patrulhamento Tático (PPT) do 9º Batalhão da Polícia Militar (BPM).

Quadrilha vende lotes em Navegantes

Em Navegantes, um local que deveria ser sinônimo do progresso acabou sendo o grande vilão. A área do Bairro São Paulo, em terreno desapropriado para dar espaço à ampliação do Aeroporto Ministro Victor Konder, é a situação que mais preocupa as forças de segurança na região de Itajaí. O lugar é considerado zona de atenção, com histórico de assassinatos e eleva os números da violência na cidade, a maioria dos delitos relacionados ao tráfico de drogas.

Os criminosos encontraram na invasão, que fica dentro do bairro e tem mais de 200 casas, uma nova maneira de arrecadar dinheiro. Eles passaram a negociar espaços no terreno e ameaçavam quem atrasava os pagamentos. Houve assassinatos por cobrança desse tipo de dívida.

– A facção encontrou um novo negócio, uma maneira de ganhar dinheiro vendendo lotes – diz o delegado Rodrigo Coronha.

No ano passado, membros da facção que estavam envolvidos na venda de terrenos foram presos em uma operação da Polícia Civil. A Justiça considerou que 475 pessoas foram vítimas de extorsão no local e 15 pessoas foram condenadas, em maio, a penas que somam 209 anos de prisão. Apesar da ação policial, o local continua ocupado. Recentemente, uma ordem de despejo foi derrubada através de liminar.

Em Camboriú, os índices de evasão escolar contribuem para a cultura de violência. A cidade abriga o distrito do Monte Alegre, que inclui o loteamento Conde Vila Verde, no passado considerado o bairro mais violento do Estado na proporção entre população e o número de homicídios. Há cerca de cinco anos, a região era alvo de uma disputa por pontos de tráfico entre facções criminosas, houve onda de homicídios e operações policiais especiais foram feitas na tentativa de frear os crimes.

A percepção nesses anos, conforme as autoridades, é de que os delitos tiveram queda, embora ainda continue sendo território de facções. Mas a quantidade de crimes relacionados à violência familiar e abuso sexual no bairro é considerada alarmante.

Combate ao tráfico desafia Chapecó

As três áreas mais vulneráveis de Chapecó, de acordo com o delegado regional de Polícia Civil Wagner Meirelles, são o loteamento Expoente, no bairro Progresso, e o bairro Efapi, distantes do centro da cidade e dos órgãos de segurança. A região Leste da cidade, que inclui os bairros São Pedro, Bom Pastor e Pinheirinho, também é considerada perigosa.

– Nosso grande problema em Chapecó é o tráfico de drogas, tanto na cidade quanto na disseminação pelas rodovias, entre elas a BR-282.

No bairro São Pedro, há mais de uma década uma região chamada "Baixada Fluminense", considerada perigosa. O delegado Wagner Meirelles afirma que a situação melhorou após a prisão de alguns líderes do tráfico.

– Não temos nenhuma situação igual a Florianópolis, a polícia entra em qualquer lugar – destaca.

Mesmo assim, quando a reportagem passou pelo local, um adolescente ameaçou agredir a fotógrafa com um taco e depois uma pedra foi arremessada contra o veículo. Outro ponto crítico do bairro é a Escola Parque Cidadã Leonel de Moura Brizola. Onde a insegurança toma conta, os portões ficam abertos e, onde existe uma guarita, dentro dela há uma pichação: "Crime droga boa".

– Está abandonado, qualquer um entra – diz um vizinho.

Na região, policiais militares faziam ronda. Em nota, a administração municipal explicou que realiza manutenções da estrutura mas que, por estar numa região de vulnerabilidade social, há um desafio para manter a integridade do espaço.

O comandante do 2º Batalhão da Polícia Militar de Chapecó, tenente-coronel Ricardo Alves da Silva, explica que na região do Bairro São Pedro, por exemplo, há vulnerabilidade e crimes de família, como violência contra mulher ou menores. Já na região da Efapi, as ocorrências mais comuns são roubos a estabelecimentos comerciais. A PM admite que o efetivo policial da região não é o ideal. Para compensar, o comandante reforçou a atuação do Pelotão de Patrulhamento Tático na região.

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